Política

Diagnóstico: Eleições do Congresso Nacional

Paulo Mello

Paulo MelloPaulo Melo é consultor político com capacitação em comunicação política e legislação eleitoral. Ele é o mais novo colaborador do Jornal Cocktail, e escreve às segundas-feiras. Acompanhe: jornalcocktail.com.br

01/02/2021 08h19
Por: Paulo Mello
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Os próximos dois anos estão indefinidos, e hoje aqueles que representam o povo irão dar rumo a esse caminho elegendo os seus líderes na Câmara dos Deputados e no Senado. Tendo em vista o cenário político nacional, essa eleição se resume em diversos rachas, tanto na Câmara quanto no Senado e o que define tanta disputa e divisões partidárias, é o enorme poder que exerce principalmente o presidente da Câmara dos Deputados.

No que diz respeito às atribuições do presidente da Câmara, a Constituição Federal o coloca como 2º na linha sucessória de presidente da república. As demais funções ficam a cargo do regimento interno da casa. Dentre tantas, elas são: manter a ordem durante as sessões; indicação de integrantes para as diversas comissões; distribuição de relatorias; pautar a ordem do dia e aprovar ou barrar instauração de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Mas o principal tema que envolve a atual eleição é que apenas o presidente da Câmara dos Deputados pode aceitar ou arquivar pedidos de abertura de um processo de impeachment. Subitamente, observa-se tamanho poderio que tal cargo exerce.

Com esse objeto, o Governo Federal e oposição têm nítido interesse no cargo. Os principais concorrentes são: Baleia Rossi (MDB-SP), que tem o apoio atual presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) pregando a independência da casa, e Arthur Lira (PP-AL) que conta com a estrutura do Planalto avalizada por Bolsonaro, que joga pesado para garantir segurança ao seu mandato e aprovar suas promessas de campanha que respectivamente precisam ser pautadas na Câmara.

Ambos os lados começaram suas articulações na pré-campanha, e tal rivalidade faz com que muitos partidos se fragmentem pela influência que o Planalto detém nesse pleito e pela maestria com que Lira manuseia a conexão de liberação de emendas parlamentares pré-eleitorais e futuros cargos no Governo em troca de apoio político. Tal habilidade vem de sua experiência como líder do “centrão”, grupo que tem como maior tradição virar as costas para quem o apoia, e seja qual for o governo, sempre mantém seus partidos satisfeitos. Vale salientar que, Lira é um dos denunciados na Lava Jato por corrupção passiva e organização criminosa, além de outra investigação por suspeita de “rachadinha” enquanto Deputado Estadual em Alagoas. Por outro lado, Rossi tem seu nome citado em listas de pagamento de empresários de São Paulo envolvidos em uma investigação sobre supostos desvios de dinheiro da Prefeitura de Ribeirão Preto.

Já no Senado Federal, a articulação não centraliza tanto no partido como é na Câmara, a conquista de votos depende mais de cada senador e não da bancada, por se tratar de um mandato majoritário que não influi em infidelidade partidária. Outra diferença, é que no Senado o Presidente da República e o atual presidente da casa Davi Alcolumbre (DEM-AP), apoiam o mesmo candidato Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o bloco oposicionista apoia Simone Tebet (MDB-MS), que prega a alternância de poder. Vale lembrar que, a eleição no Senado também é afetada pela “bondade” incomum do Planalto, assim como na Câmara dos Deputados. Tal “cortesia” para com os senadores faz com que opositores de Bolsonaro se esquecem da rivalidade política em troca de benefícios posteriores, como o PT e PDT. Porém, o mais grave é o que acontece dentro do MDB que não vê sua própria senadora como alternativa, quando seduzido pela barganha.

Hoje, tudo irá se definir através do voto secreto praticamente a portas fechadas, e nesse conclave que demonstra uma definição antes mesmo do início não é nada atual, mas indica a hipocrisia política despertada naqueles que pregavam a renovação, sendo os dois favoritos aqueles que detêm o apoio do Palácio do Planalto. À vista disso, é nítido que os partidos não usam sua essência ideológica (que talvez nem mais exista) para escolher entre seus pares, mas buscam, sim, uma união momentânea para alcançar um proveito individual.

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